Como Funciona o Dessalinizador para Barco e Por Que Ele É Essencial?


Tem uma coisa que pouca gente fala quando começa a pesquisar dessalinizador, e que só aparece de verdade quando você já está no mar: ele não resolve tudo. Eu demorei mais tempo do que deveria pra entender isso.

Navego há pouco mais de 10 anos, e desde 2018 estou com um veleiro de 36 pés que fui ajustando aos poucos, mais errando do que acertando no começo, pra ser honesto. Já rodei alguns trechos mais longos da costa, principalmente entre Vitória e o litoral do Rio Grande do Norte, e insistir em depender só de tanque foi uma decisão que eu mantive por tempo demais.

Funcionava, até não funcionar mais.

O sistema, no papel, é direto, ou pelo menos parece: captação de água do mar, pré-filtragem, pressão alta, membrana. A água atravessa, o sal fica. Pronto. Só que não é tão “pronto” assim.

Em janeiro de 2022, fundeado na Baía de Camamu, sul da Bahia, eu entendi isso na prática. Fiquei 11 dias sem encostar em marina, rodando o dessalinizador cerca de 2 horas por dia, sempre de manhã cedo, aproveitando o pico de geração solar. No 12º dia, quando levantei ferro pra seguir pra Morro de São Paulo, o tanque estava mais cheio do que quando cheguei.

Ali fez sentido. Não no sentido de “agora resolveu tudo”, mas de entender que funciona — dentro de condições bem específicas.

Em outubro de 2021, antes disso, o Ricardo, meu cunhado, saiu de Cabedelo (06°58' S) rumo a Fernando de Noronha com a esposa e os dois filhos. Terceiro dia de navegação, calor pesado, consumo acima do planejado. Quando abriram o tanque, já estava no limite. Desviaram pra Natal, entraram na marina do Iate Clube do RN, perderam dois dias de janela e gastaram pouco mais de R$800.

Ele me contou isso no píer de Jacaré, ainda meio irritado. “Economizei no equipamento e paguei na marra.”

Isso ficou comigo, mas não foi o suficiente pra decisão imediata.

O outro lado também existe — e não é raro.

O Marcelo, que navega em Angra e deixa o barco na Praia do Frade, instalou um portátil da Katadyn em 2020. Usou quatro vezes em dois anos. Hoje o equipamento fica guardado. Ele mesmo me disse, em abril do ano passado, que se arrepende da compra. Pra rotina dele, não fez sentido.

E isso levanta uma dúvida que ainda acho pouco respondida no mercado: será que parte dessas soluções não está resolvendo problemas que só existem na teoria?

No meu caso, a virada veio em março de 2023, quando troquei a primeira membrana do sistema — instalado em 2019, cerca de 60 litros por hora. Durou 4 anos e 2 meses.

Paguei R$2.800 na reposição. Não doeu… mas também não foi leve.

Outra coisa que ainda me chama atenção é a diferença de preço entre sistemas parecidos.

Em fevereiro deste ano, vi um Spectra Ventura 150 anunciado por cerca de R$12.400. Outro sistema com capacidade semelhante passava fácil dos R$25 mil.

Mesma base tecnológica. Mesma lógica. O que muda tanto? Marca, durabilidade… ou só o mercado?

Não tenho uma resposta clara para isso.

Antes de chegar no sistema fixo, testei outras soluções. Em 2017, fiz uma travessia entre Vitória e Caravelas só com tanque e galão. Funcionou, mas era limitante: você vive olhando nível, fazendo conta, ajustando hábitos. Em 2018, usei um portátil emprestado. Resolvia, mas exigia tempo demais para pouca água.

Acabei migrando para o fixo. Não foi uma decisão óbvia na época. E, sendo bem sincero, talvez não fosse a mesma hoje.

Consumo muda tudo. No meu barco, com duas pessoas, gira em torno de 45 litros por dia. Quando sobe mais gente, passa fácil de 90. E aí a conta muda rápido.

O dessalinizador acompanha. O tanque não. Só que ele também cobra.

O meu sistema consome por volta de 280 watts, mas já medi picos perto de 320. Não é absurdo, mas também não é irrelevante. Se o sistema elétrico não estiver bem ajustado, vira outra limitação. E há dias em que simplesmente não entrega.

Já aconteceu comigo em Ilhabela, em dezembro de 2022, depois de muita chuva. A água estava mais carregada, o pré-filtro saturava rápido e o rendimento caía. Resolve, mas não na hora.

E no mar, “não na hora” às vezes é o problema inteiro.

Hoje, com tudo isso acumulado, eu não consigo responder automaticamente se vale a pena. Porque depende do tipo de uso, da frequência, e do quanto você quer, ou precisa, se afastar de estrutura em terra.

O dessalinizador não elimina dependência. Ele desloca a dependência.

E talvez a pergunta mais honesta nem seja se vale a pena instalar. Talvez seja outra: até que ponto você quer parar de depender — e até que ponto só está trocando uma dependência por outra mais confortável?

Eu ainda não fechei essa resposta.

E desconfio que ela muda com o tempo.

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